DEVO APRENDER A COMO INTERPRETAR A BÍBLIA?
(Continuação)

de D. A. Carson

Princípio II
Reconheça Que A Natureza Antitética De Certas Partes Da Bíblica, Assim Também Como Algumas Das Pregações De Jesus, É Um Mecanismo Retórico, Não Um Absoluto. O Contexto Deve Decidir Onde Este É O Caso.

Claro, há antíteses absolutas nas Escrituras que não devemos minimizar de forma alguma. Por exemplo, as disjunções entre as bênçãos e maldições em Deut 27-28 não são mutuamente delimitante: a conduta que invoca as maldições de Deus e a conduta que conquista a sua aprovação se posicionam em campos opostos, e não devem misturar-se ou diluir-se. Mas por outro lado, quando há oito séculos antes de Cristo, Deus diz: “Pois misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos” (Oseías 6:6), o sistema sacrifical da aliança mosaica não está deste modo sendo destruída. Ao contrário, a antítese do hebraico é uma forma clara de dizer: se o impulso chegar a pressionar, a misericórdia é mais importante do que o sacrifício. O que quer que você faça, você não deve graduar as notas da religião formal; neste caso, holocaustos e outros sacrifícios rituais ordenados, com o reconhecimento fundamental de Deus, ou confundir a dimensão do qual Deus estima a compaixão e a misericórdia com a firmeza com a qual ele exige a observância das formalidades do sistema sacrifical”.

Semelhantemente, quando Jesus insiste que se alguém quer se tornar um discípulo seu, ele deve odiar seus pais (Lc 14:26), não devemos pensar que Jesus está sancionado o ódio aberto dos membros da família. O que está em jogo é que as afirmações de Jesus são mais urgentes e autorizáveis mesmo do que as relações mais preciosas e prezadas, como o paralelo em Mt 10:37 deixa claro.

Algumas vezes a antítese aparente é formada através da comparação de afirmações de duas passagens diferentes. Por um lado, Jesus insiste que a oração de seus seguidores não deveria ser como os balbucios dos pagãos que pensavam eram escutados, por causa das suas muitas palavras (Mt 6:7). Por outro lado, Jesus pôde, em uma outra passagem, contar uma parábola com a lição clara de que seus discípulos deveriam orar com perseverança e não desistir (Lc 18:1-8). Mesmo assim, se imaginarmos que o conflito formal entre as duas injunções é mais do que superficial, nós traímos não só nossa ignorância do estilo de pregação de Jesus, mas também nossa insensibilidade às exigências pastorais. A primeira injunção é vital contra aqueles que pensam que podem persuadir com um jeitinho as coisas de Deus através de orações intermináveis. A segunda injunção é vital contra aqueles cujo compromisso espiritual é tão superficial que suas orações resmungadas de uma só frase é toda a sua vida de oração.

Princípio III
Seja Cuidadoso Ao Ser Absoluto Naquilo Que Foi Dito Ou Ordenado Apenas Uma Vez

A razão não é que Deus tem que dizer as coisas mais de uma vez para que elas sejam verdadeiras ou autorizadoras. A razão, pelo contrário, é que se algo só for dito apenas uma vez, este se torna mais fácil de ser mal-entendido ou mal-aplicado. Quando algo é repetido em várias ocasiões em contextos ligeiramente diferentes, os leitores desfrutarão de um domínio melhor do que se quer dizer e do que está em jogo.

É por isto que a famosa passagem do “batismo pelos mortos” (1 Co 15:29) não é desenvolvida extensivamente e não causou um impacto enorme, digamos, na Confissão de Heidelberg ou na Confissão de Westminster. Mais de quarenta interpretações da passagem já foram oferecidas na história da igreja. Os mórmons estão bem certos o que a passagem significa, claro, mas a razão por que eles têm tanta certeza é porque eles as lêem dentro do contexto de outros livros que eles alegam que sejam inspirados e autoritários.

Este princípio também salienta uma das razoes porque a maioria dos cristãos não vêm a ordem de Cristo para lavar os pés uns dos outros como um terceiro sacramento ou ordenança. O batismo e a ceia do Senhor são certamente discutidos em mais de uma única vez, e há ampla evidência de que a igreja primitiva observou ambas as práticas, mas não se pode dizer as mesmas coisas sobre o lava-pé. Mas há mais para se falar.

[Em breve, Deus permitindo, iremos reproduzir nesta seção mais princípios da interpretação de D.A. Carson.]



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O Dr. D. A. Carson ensina Novo Testamento na Trinity Evangelical Divinity School e tem mais de vinte livros do seu próprio punho, entre as quais em português temos: "Comentário do Evangelho de João" da Shedd Publicações e "Os Perigos da Interpretação Bíblica" e "Introdução ao Novo Testamento" (co-editado com Douglas Moo e Leon Morris), ambos da Editora Vida Nova.


29/10/2008